Em primeira pessoa

A bela, a adormecida e os contos de fadas

por Helena Gomes
12 de novembro de 2015


Já foi tempo em que o final feliz dependia apenas da coragem do príncipe, enquanto a princesa que ele mal conhecia – e com que acabaria se casando como recompensa por sua valentia – o aguardava trancafiada no último andar da torre mais alta do castelo.

Aliás, falar de tempo é fundamental quando se trata de contos de fadas, pois é a passagem de anos, décadas, séculos e até milênios que prova que essas histórias são duradouras e eternamente atuais. E não estou pensando só nas mais famosas, como “Branca de Neve” e “A Bela Adormecida”. Há muitas, mas muitas outras mesmo, e tão antigas quanto o mundo.

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Os contos de fadas, na verdade, não nasceram como narrativas para crianças nem foram inventados por Charles Perrault ou pelos irmãos Grimm. Também não tiveram uma única fonte e sim várias, a maioria de origem desconhecida. Elas vêm de uma longínqua tradição oral, desde a primeira vez que os nossos antepassados pré-históricos se sentaram ao redor de uma fogueira e um deles resolveu contar uma história para animar a noite.

Em cada época diferente e ao sabor das escolhas de cada narrador, os contos de fadas foram incorporando mais e mais elementos das várias culturas do planeta, de acordo com as características de cada civilização e de sua realidade social, econômica e histórica. Um processo tão rico, diverso e amplo que por si só mostra as ilimitadas possibilidades desse universo ficcional.

Um pedaço de uma história, por exemplo, criou uma segunda história. Ou se misturou a outro pedaço, esse tirado de uma terceira história. Uma personagem bruxa para um narrador francês virou a Baba Yaga na versão criada por um russo. Ou seja, uma mudança aqui, uma adaptação ali, uma metamorfose quase completa acolá e assim o processo foi seguindo em frente.

Porque é o que os contadores, escritores e roteiristas fazem até hoje: contam do jeito deles essas narrativas, recriando, adaptando e reescrevendo tanto as mais famosas quanto as menos conhecidas. São releituras que muitas vezes realinham de modo único vários elementos, dando novos significados a personagens e contextos.

A bela e a Adormecida 3DÉ o acontece com A Bela e a Adormecida, de Neil Gaiman. Nessa caprichadíssima edição da Rocco Jovens Leitores – capa dura, sobrecapa de papel transparente e páginas e mais páginas com delicadas ilustrações em preto, branco e dourado, feitas por Chris Riddell –, o premiado autor inglês reúne duas famosas personagens dos contos de fadas numa aventura em que nem tudo é realmente o que parece ser.

E, melhor, ele atribui à mulher um papel que foge das tradicionais heroínas sofredoras à espera de príncipes encantados. Dessa vez, é uma jovem rainha que, de espada em punho, vai à luta para proteger o seu reino contra o feitiço do sono eterno. Como ajudantes, estão três anões e, entre os perigos, sonâmbulos-zumbis e as lembranças do próprio passado da moça.

Curiosamente, uma das citações do texto remete às versões ancestrais desse tipo de história, o uso dos temidos sapatos de ferro como punição ou sacrifício voluntário. É como Gaiman age a cada instante, lembrando ao leitor a natureza primitiva e brutal dos contos de fadas. Que o digam as hoje quase esquecidas heroínas de olhos perfurados, mãos arrancadas… E principalmente os vilões punidos com tremenda crueldade pelos próprios heróis. Nada que a transformação dessas narrativas em literatura infantil ou em clássicos da Disney já não tenha eliminado.

No fundo, os contos de fadas são como registros vivos de toda a nossa trajetória como seres humanos: refletem costumes, valores, mentalidades e vestígios de leis antigas, das religiões pagãs hoje consideradas mitologia… E, claro, vestígios da crença no sobrenatural, na magia que tanto nos encanta.

Nem que a magia apareça disfarçada de poderes mentais, em um cenário de ficção científica. Foi essa a escolha da autora norte-americana Marissa Meyer para a série “Crônicas Lunares”, com três títulos lançados até agora no Brasil: Cinder, Scarlet e Cress, cada um priorizando sua versão de uma heroína (Cinderela, Chapeuzinho Vermelho e Rapunzel, respectivamente). Winter (Branca de Neve) completará a série.

trilogia cronicas lunares

Claro que torci o nariz ao ler a sinopse e descobrir que a pobre Cinderela tinha virado um ciborgue! Mas então, quando comecei a ler… Devorei os livros em poucos dias. Sim, é uma série muito boa. E divertida. Previsível em alguns pontos porque contos de fadas são previsíveis, porém totalmente viciante nas reviravoltas, nas cenas de ação, no humor inteligente e no tom de aventura despretensiosa.

Claro que há romance no ar, mas as garotas não estão lá de enfeite, nem à caça de namorados. Elas são protagonistas de fato, salvando gente indefesa lado a lado com os rapazes. Com certeza, reflexo da nossa época, que reivindica a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Além de possibilitar uma infinidade de releituras e de ser um registro vivo da evolução da humanidade, os contos de fadas ainda têm outra característica, a que seduz os seres humanos desde aquela primeira contação de histórias ao redor da fogueira. É a identificação que as narrativas nos fazem criar com os personagens, como se eles nos representassem.

Sentimos o medo da maldade que os personagens sentem, sofremos com as injustiças que sofrem, sonhamos os mesmos sonhos que acalentam. Seus dilemas podem ser os nossos, embora descomplicados por um universo em que é tão fácil escolher entre o bem e o mal, lados distintos e opostos como só na ficção é possível.

O melhor, no entanto, é nos permitir acreditar em finais felizes que não costumam ocorrer na vida real. Justamente porque a vida é real.

Para mim, esse é o verdadeiro fascínio dos contos de fadas.

 Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de mais de trinta livros, entre eles obras finalistas do Prêmio Jabuti e do Prêmio FNLIJ, com Selo Altamente Recomendável. Pela Rocco, publicou Lobo Alpha, Código Criatura, Assassinato na Biblioteca e Conexão Magia (esse em coautoria), além da série em e-book A Caverna de Cristais. Mais informações no blog http://helenagomes-livros.blogspot.com.br

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Comentários sobre "A bela, a adormecida e os contos de fadas"

  1. Ah, como a série das Crônicas Lunares é maravilhosa. De longe uma das minhas favoritas. Escrita com tanta precisão, com histórias de amor brilhantes e personagens absolutamente memoráveis. Deveria ganhar a divulgação e o reconhecimento que merece.
    Cordialmente, Ana.

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