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DENISE ASSIS Idealizadora e coordenadora da coleção Elas são de morte, autora do Vende-se vestido de noiva |
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O maior nome da literatura de suspense era uma mulher, Agatha Christie. Recentemente, temos autoras como P.D.James fazendo muito sucesso lá fora. Mas no imaginário popular suspense e mistério ainda parecem ser uma coisa "de menino", talvez pela associação direta às histórias de Sherlock Holmes e aos filmes de pancadaria. Existe uma maneira feminina de escrever mistério? DENISE: Acho que existe, sim. O mistério é um componente muito forte na mulher. E não precisa necessariamente estar escrevendo policial. Os livros de Clarice Lispector, por exemplo, transbordam mistério. A cada frase ficamos esperando que ela nos chame para um “particular” e confesse onde dói tanto, quem depositou na sua alma tamanha inquietação e ao mesmo tempo a fez tão forte na maneira de dizer que está frágil. Que mistérios tem Clarice? Alguém já perguntou. E não por acaso. Nessa série, o curioso para o leitor será exatamente observar o quanto a mulher tem de delicadeza, até mesmo para matar. Ao escrevermos sobre crimes, o que estamos fazendo nada mais é que um exercício de morte. Morte da nossa morbidez, da nossa curiosidade em torno da morte, da nossa violência reprimida. É uma morte criadora, mas é um ato de matar. E cada uma das nossas autoras o faz de uma maneira muito própria e com toda a carga de sua trajetória, do seu olhar feminino sobre a morte.
Como você selecionou as escritoras que compõem a série? DENISE: O critério para a seleção das quatro primeiras foi a partir da nossa experiência de iniciarmos juntas a escrever ficção. Foi a cumplicidade da iniciativa. As outras, escolhi, digamos, de caso pensado. Comecei a me divertir com as escolhas. Imaginava, por exemplo, esse lado pop da Scarlet Moon se misturando com a crueldade de um crime e ria, pois eram mundos quase incompatíveis, uma mistura divertida. Ao mesmo tempo, queria reunir essas mulheres cujos textos conheço e admiro de um outro universo, e dizer a elas: vamos jogar esse talento na ficção. Antevia o quanto seria surpreendente ver a Heloísa Marra, que escreve sobre moda, por exemplo, assinando uma novela policial e comecei a apostar que o público poderia gostar desse contraste. Quis também ligar nomes como os de Denise Bandeira e Maria Carmem Barbosa, que já escrevem ficção, ao crime. Por que não? Acho que essa coleção é antes de tudo um ataque de bom humor do início ao fim, na medida em que se pode falar em crime de forma leve.
Como está estruturado Vende-se vestido de noiva, o seu livro na série? DENISE: Ele é ambientado em Belo Horizonte. A escolha foi uma espécie de reencontro com a minha cultura, com os códigos de uma fala da qual eu já estou distanciada há quase trinta anos. Fui buscar personagens da classe média baixa, que costumam ter sonhos simples, como a realização da festa de casamento. É a história de uma moça que trabalha numa loja de vestidos de noiva e depois de se esforçar para comprar o modelo mais caro da vitrine vê o noivado desfeito. Ela coloca o vestido à venda num classificado de jornal e quem aparece para comprar é a atual namorada do ex-noivo. O desfecho é trágico, obviamente.
Como autora, quais são suas influências quando o assunto é literatura policial? DENISE: A minha leitura no gênero é totalmente estrangeira, e não tem muito a ver com o que se está produzindo agora, como os livros de Patrícia Cornwell, por exemplo. Embora conheça alguns dos autores recentes, não me detive neles. O que li em termos de romances policiais foi Edgard Allan Poe, Georges Simenon e Agatha Christie. Nesses sim, viajei. Agatha, nossa musa, tem uma grande habilidade, que é se sobrepor às cenas com uma narrativa eclipsante, que nos leva, com suas descrições de ambiente e de ação, a não nos darmos conta do quanto ela evita mergulhar no perfil psicológico dos personagens. É como se nos jogasse areia nos olhos e nos encantasse com sua perícia em fazer com que eles se movimentem. Ao contrário de Georges Simenon, que nos esfrega na cara a alma dos seus personagens e nos transporta para o mundo deles. Como no caso de O homem que via o trem passar, em que ele desconstrói a vida do inicialmente pacato Kee Popinga, detalhando sua libertação através da loucura, da ousadia de chutar o balde. E o Edgard Allan Poe, que nos faz perder a respiração e mantém o suspense até a última página.
Se você tivesse que fazer uma genealogia da literatura de suspense no Brasil, por que autores ela passaria, obrigatoriamente? Por quê? DENISE: Li e reli A morte no envelope, do pioneiro Luiz Lopes, que entre nós foi o primeiro a optar pela ficção investigativa. Li também Rubem Fonseca, que firmou o estilo. Fiz uma leitura por outros gêneros, que hoje me permitem usar seus recursos. Atualmente, temos o Luiz Alfredo Garcia-Roza, criador do delegado Espinosa, da 12ª DP, de Copacabana. Premiado com o Nestlé e o Jabuti, ele é um carioca que abandonou a psicanálise para se dedicar ao romance policial e já foi traduzido em cinco países. Isso não é pouco.
Que outros gêneros de autores nacionais você leu? DENISE: Sou mesmo apaixonada por Clarice Lispector, e acho a naturalidade com que Nelson Rodrigues desnuda a hipocrisia da estrutura familiar, admirável. Em Angústia, Graciliano Ramos nos seqüestra. Gosto muito de O ventre, do Carlos Heitor Cony, que tem uma estrutura primorosa. Adoro Os sertões, de Euclides da Cunha, pelo tom épico e a sua preocupação em descrever a geografia do sertão para nos transportar para o palco da luta de Canudos. Em Dom Casmurro, Machado de Assis consegue manter o clima de suspense até hoje, deixando no ar a dúvida sobre o adultério. E quer mais mistério do que conseguiu manter Carlos Drummond de Andrade, nos deixando intrigados sobre onde tirava tanta sensualidade em seus poemas? Só depois de sua morte ficamos sabendo das tardes de estripulias que costumava ter com sua amante. Isso sim é que é ser mestre no suspense. Esses são os meus autores nacionais preferidos. Na sua opinião, há alguma característica específica desta literatura por aqui? Existiria um noir verde-amarelo? DENISE: Não é um gênero muito praticado por aqui. O que se conhece é o Rubem Fonseca. Vejo que agora surgem novos nomes, como o Marçal Aquino e a Patrícia Melo. Talvez sim, esteja ganhando força, entre nós, o noir brasileiro, pois inspiração para crimes e mistérios nesse país é o que não falta.
Que ingredientes precisa haver num bom livro policial para ele prender a atenção do leitor? DENISE: Como leitora, o que me prende num policial é a linguagem ágil, simples e uma história bem montada, que não permita ao leitor matar a charada do crime logo nas primeiras páginas. Já deixei de ler um livro de autor nacional, aliás de grande sucesso no gênero, por ter descoberto, na página 21, quem era o assassino. Me desinteressei e não consegui ir até o final. Nós, as autoras da coleção, estamos buscando acertar. A maior parte foi formada no jornalismo, o que exige que sejamos simples e diretas. Tomara que tenhamos encontrado o ponto G.
Você tem acompanhado os novos livros policiais do Brasil?
Qual a contribuição que autores como Luiz Alfredo Garcia-Roza,
Marçal Aquino e Patrícia Melo deram ao gênero, por
exemplo? O que ainda pode ser explorado DENISE: O Marçal Aquino, como jornalista que é, tem a concisão e a observação do cotidiano, típicos de um repórter. Suas histórias têm, visivelmente, a influência da reportagem. Tanto é assim que seus romances e contos foram transpostos para o cinema, sem grande dificuldade. Isso se deu graças a esse poder de ação e descrição que o repórter desenvolve. Já o Luiz Alfredo Garcia-Roza trouxe a sofisticação da formação acadêmica e psicanalítica, o que permite que ele construa os seus personagens, principalmente o delegado Espinosa, de forma muito convincente. Quanto à Patrícia, é bom que seja militante do gênero, pois quanto mais mulheres seguindo os caminhos de Agatha Christie, melhor.
O romance policial brasileiro urbano está muito associado à obra de Rubem Fonseca. É uma influência para você? Acha que o papel dele foi marcante para uma nova geração de autores? DENISE: Ele foi um dos primeiros
a experimentar o romance policial brasileiro, por isso, todos que vieram
depois, têm algum traço do seu estilo. Influência,
mesmo, recebi do José Louzeiro, que foi uma verdadeira bússola.
Por toda a sua experiência no jornalismo policial e o domínio
da técnica do romance, suas orientações foram imprescindíveis.
Como já disse, nessa área li muito mais os autores estrangeiros.
Não saberia dizer que caminho escolhi. Escrevi de maneira intuitiva,
me divertindo em esconder pistas e brincar com o destino dos personagens.
Foi quase como se estivesse participando de um jogo, com um gosto antecipado
de vitória, pois dessa vez não tinha o compromisso jornalístico
com os fatos, com a verdade, podia dispor à vontade das vidas que
estavam em minhas mãos. |
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