CLÁUDIA MATTOS
Autora do Pescaria de corpos
 

Como surgiu a idéia para Pescaria de corpos?

CLÁUDIA MATTOS: Sempre fiquei imaginando o que aconteceria se um serial killer inteligente e sofisticado - nos moldes dos melhores personagens do gênero da literatura americana e inglesa - resolvesse começar a agir no Rio. Por lá, os crimes do gênero são sempre resolvidos com base numa investigação de recursos tecnológicos quase
ilimitados. Como seria por aqui? Sem entrar na gênese do problema, é de conhecimento público que a polícia brasileira pouco investiga. Como pegar um cara desses? Como lidar com a opinião pública internacional - tão decisiva para a nacional diante da baixa auto-estima brasileira - se o assassino só ataca mulheres estrangeiras? Além desse ponto de partida, tinha um tema que me perseguia há tempos: a arrogância. Tentei fazer com que
ele fosse a falha trágica de todos os personagens centrais.


Você já tem outros livros publicados. Poderia falar sobre eles?

CLÁUDIA: Pescaria de corpos é meu segundo romance e quinto livro na conta geral. Antes, lancei Nacionalidade: Estrangeira (Bom Texto, 2001), que, apesar de não ser policial, é um romance. Como sempre gostei de policial, resolvi ver se eu também conseguia escrever dentro do gênero, que tem uma estrutura muito específica em relação ao universo da prosa ficcional. Não procurei inventar receita. Tudo o que tentei fazer foi um saboroso bolo com a receita tradicional. É claro que, na hora da mistura, não há como resistir a colocar um granulado ou um copinho de conhaque a mais. Gostei muito e fiquei com um gostinho de quero mais. Já tenho umas idéias, inclusive com os mesmos personagens... Tanto o livro sobre futebol, Cem anos de paixão - uma mitologia carioca no futebol (Rocco, 1997), quanto o Pescaria de corpos, têm um ponto em comum. Nos dois, a cidade e o modo de ser carioca têm importância fundamental. Além dos livros citados, escrevi dois outros: Rio de todas as cores (Turismo/Letras & Expressões, 2002) e Declarações de paz em tempos de guerra (Ensaio histórico/Bom Texto, 2003). Este último junto com o Emir Sader. Chique, não? Como você pode ver, não sou nenhum Simenon, mas ando escrevendo um bocado.

 

Sua experiência como jornalista - e o trabalho nas redações - de alguma maneira ajudou na coleção de histórias que compõem o livro?

CLÁUDIA: Não de maneira direta. Um jornalista sabe como poucos o que é escrever por obrigação, e não só por inspiração. Isso ajuda muito a insistir com uma história, mesmo quando ela dá um nó em determinados momentos e parece que você nunca mais vai achar o fio da meada. É um trabalho braçal mesmo. É como fechar uma página de jornal quando tudo o que você tem são duas frases curtas de um entrevistado. As histórias que estão no livro, em si, não tem semelhança com nada que eu realmente tenha presenciado nos dois anos em que fui repórter de polícia, a não ser o olhar meio desolado de turistas estrangeiros tentando prestar queixa na Deat e o desespero de parentes de vítimas de violência - bem brasileiras - que eu entrevistei como repórter. No entanto, não há como negar que o personagem do governador guarde semelhanças com figuras reais do poder
público. Para não dizer que fui parcial, a da jornalista também.

 

A série "Elas são de morte" reúne uma série de autoras que escrevem policiais. Você acha que pode haver um suspense feminino? Se sim, quais seriam suas características?

CLÁUDIA: Não gosto de falar em literatura feminina, escritura feminina ou suspense feminino. O que é bom de ler é uma história bem contada com personagens que ganham carne e osso com a leitura. Isso independe do gênero do autor. Se é que pode haver uma diferença, ela está no uso de protagonistas femininas bem desenhadas, mais próximas de mulheres reais. Mas isso não significa que tais personagens não possam ser escritas por um homem. Basta que o autor, homem ou mulher, escreva bem. Agora, tem um fato que é curioso. Na literatura em língua inglesa, existe toda uma tradição de grandes damas do crime. Agatha Christie, Patricia Highsmith. P.D. James, Patricia Cornwell, só pra ficar no básico. Isso até rendeu filme (Swimming Pool, do François Ozon). Aqui, não. O bom da coleção é mostrar que as mulheres brasileiras também podem escrever romances policiais.
Quem sabe a coleção acaba revelando uma dama do crime made in Brazil?

 

Autores nacionais como Rubem Fonseca e Luiz Alfredo Garcia-Roza viraram best-sellers com romances policiais. Você acha que existe um suspense à brasileira? Existem temas que são nacionais? Ou as histórias que lemos/escrevemos por aqui poderiam ter outro sotaque?

CLÁUDIA: Em geral, a literatura policial brasileira explora o chamado submundo do crime - prostituição, contravenção, drogas, perversões diversas, etc. É tudo meio bas-fonds demais. No entanto, existe toda uma gama de crimes que dá ótimo material para a literatura policial, sem que, com isso, se perca a cor local. Esse é um território ainda a ser desbravado. Pescaria de corpos, por se tratar de uma história de serial killer, tem influência clara do tipo de literatura policial que se faz nos EUA ou na Inglaterra, mas nem por isso deixa de ser uma história totalmente brasileira, mais que isso: carioca. Enfim, não existe e nem deve existir um único sotaque no policial feito no Brasil. Quanto mais sotaques, melhor. Já pensou na quantidade de crimes de colarinho-branco que dariam ótimos policiais? Outra característica do gênero que a produção policial brasileira pouco explora é a criação de uma série de histórias com um mesmo protagonista (Poirot, Maigret, Scarpetta). Adoraria retomar os sobreviventes do Pescaria de corpos.

 

Como leitora, quais são os seus autores policiais prediletos?

CLÁUDIA: Como quase todo mundo que eu conheço, comecei com Agatha Christie. Gosto muito de Simenon. Atualmente, sou fã de carteirinha da Patricia Cornwell. Tem algumas coisas do Paul Auster que eu também adoro. As influências não vêm só da literatura. A Inglaterra produz vários seriados para a TV de primeira linha, como Silent Witness, Prime Supect e The Governor.

 

Você tem algum outro projeto de livro para o futuro?

CLÁUDIA: Muitos. Tenho uma história já pronta na cabeça, só esperando os personagens de Pescaria de corpos descansarem um pouquinho para ser passada para o papel. Também estou trabalhando em duas outras histórias que não estão relacionadas com a literatura policial. Uma é uma aventura infanto-juvenil, e outra é uma história de amor com componentes de suspense.

 
 
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