|
|||
| ATENEIA FEIJÓ
Autora do O jantar da largatixa |
|||
|
|||
| ATENEIA: A causa ecológica, na verdade, tem a ver com a sobrevivência planetária, com qualidade de vida sustentável etc etc. Então, ela entra naturalmente na trama de mistério. Ela “participa” do enredo policial e sustenta um clima de suspense bem brasileiro. No mínimo, O jantar da lagartixa é bastante original. (Estarei sendo pretensiosa?) Bem, quanto a misturar vários elementos numa história de crime e morte num país com as dimensões e a diversidade do Brasil, não é difícil. Amazônia, índios e garimpo são temas com os quais sou bastante familiarizada, por ter me dedicado a eles durante muitos anos.
O maior nome da literatura de suspense era uma mulher, Agatha Christie. Recentemente, temos autoras como P. D. James fazendo muito sucesso lá fora. Mas no imaginário popular suspense e mistério ainda parecem ser uma coisa “de menino”, talvez pela associação direta às histórias de Sherlock Holmes e aos filmes de pancadaria. Existe uma maneira feminina de escrever mistério? ATENEIA: Acho que existe uma maneira feminina de escrever mistério, sim. E vou um pouco mais longe. Acho que grande parte das escritoras não assumia essa maneira diferente de escrever. Tanto assim, que algumas assinam apenas com as iniciais e o sobrenome, sem se identificarem (de imediato) como mulheres. Acho ainda que muitas procuram até escrever como os homens. E, daí, alimentam esse imaginário popular que suspense e mistério são uma coisa “de menino”. Então, palmas para a inglesa Agatha Christie. Ela criou a personagem Hercule Poirot, o detetive belga totalmente avesso à violência machista, como somente uma mulher poderia criar. E assinou a autoria com o nome completo.
Como autora, quais são suas influências quando o assunto é literatura policial? ATENEIA: Influência de estilo? Honestamente, não sei. Como repórter, acredito ter desenvolvido meu próprio estilo de texto. Afinal, sempre ganhei a vida contando histórias... Agora, quanto à técnica do chamado texto de romance policial, confesso: segui a “receita” clássica. Ou seja, existem vários fatos e um crime que é investigado até se encontrar o criminoso. E, claro, a possibilidade de várias pistas, de vários suspeitos e vários criminosos. A história só termina com a descoberta final do verdadeiro assassino.
Se você tivesse que fazer uma genealogia da literatura de suspense no Brasil, por que autores ela passaria, obrigatoriamente? Por quê? ATENEIA: Para responder a essa pergunta corretamente
teria que estudar o assunto primeiro. Mesmo assim, me arrisco a dizer
que um romance policial precisa ser bem escrito e ter uma história
de suspense apaixonante para fazer sucesso junto ao grande público.
Nesse sentido, acredito que se levarmos em conta as características
do gênero, Rubem Fonseca é um marco.
Que outros gêneros e autores nacionais fazem parte de sua mesa-de-cabeceira? ATENEIA: Penso que todo jornalista deveria ler Os sertões, de Euclides da Cunha. É um livro diferente e impressionante, de uma precisão técnico-científica, uma preocupação sócio-antropológica, uma sensibilidade histórica incríveis. Trata-se de um gênero único! Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, também é outra obra prima imperdível. Bem, e tem Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Mário Palmério, Antônio Callado, Darcy Ribeiro, João Ubaldo,Carlos Heitor Cony, Ana Miranda... Mas também gosto muito dos latino-americanos Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende e Mario Vargas Llosa. Do português contemporâneo José Saramago e do clássico Eça de Queirós. E há um romance de um antigo autor português, Ferreira de Castro, que me impactou quando eu era ainda uma adolescente. Chama-se A selva e o seu enredo se passa num seringal da Amazônia brasileira. Que mais? Adoro ficção científica e histórias de mistério e terror tipo A máquina do tempo, A ilha do Dr. Moreau e o Homem invisível, de H.G.Wells. Drácula, de Bram Stoker e... Frankenstein, de Mary Shelley, uma mulher que tinha 20 anos, na época em que escreveu a história! Considerada, veja só, “pai” da ficção científica... gosto de ler também livros não ficção de autores cientistas (que saibam escrever para o público leigo) e fico atenta aos lançamentos do gênero. E, nesse nicho, temos excelentes autores nacionais: os físicos especializados em cosmologia Marcelo Gleiser e Mário Novello, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel... Eles falam dos mistérios cósmicos e dos segredos de nossos cérebros. Um barato.
ATENEIA: Não sei se existe um noir verde-amarelo.
Não estou capacitada para tamanha afirmação. Segundo
o jornalista, escritor e tradutor Marcos de Castro, no fim dos anos 1950
e na primeira metade dos anos 1960, o paulista Luís Lopes Coelho
chegou a ser falado, a partir do seu A morte no envelope (1957). Hoje,
dificilmente alguém fala dele, seus livros se esgotaram e não
foram reeditados. Parece-me que, hoje, os novos autores no gênero
se esforçam para criar romances policiais com características
brasileiras urbanas. Luiz Alfredo Garcia-Roza é um deles.
Que ingredientes precisa haver num bom livro policial para ele “prender” a atenção do leitor? ATENEIA: Um crime envolvido em mistério com
vários suspeitos e pistas para o leitor “interagir”
e acompanhar a “investigação”, apostando em
quem deve ser o verdadeiro matador ou os verdadeiros matadores. É
quase um jogo. Quer dizer, a história tem que ter um desafio lúdico
para o leitor. Acho que é mais ou menos isso.
Você acha que a literatura policial, muitas vezes associada ao entretenimento, pode ajudar a formar novos leitores? ATENEIA: Claro que pode. Não existe nada melhor
que uma leitura de entretenimento para fisgar novos leitores. Afinal,
só depois de “fisgá-los” é que se pode
pensar em formá-los para uma literatura mais complexa, mais sofisticada,
acadêmica... Quantos e quantos leitores ou leitoras experientes
não devem ter se “viciado” em livros, durante a adolescência,
a partir de Agatha Christie e Sherlock Holmes? Acredito que até
os “literatos de berço” tiveram sua fase de leitura
noir. E aposto... um adulto que tenha tido a sorte de ler, por exemplo,
Ladrões do tempo, do americano Tony Hillerman, não escapou:
certamente ficou encantado com esse livro policial étnico que mistura
cultura indígena, mistério e suspense.
Você tem acompanhado os novos livros policiais do Brasil? Qual a contribuição que autores como Luiz Alfredo Garcia-Roza, Marçal Aquino e Patrícia Melo deram ao gênero, por exemplo? O que ainda pode ser explorado neste tipo de literatura? ATENEIA: Li Luiz Alfredo Garcia-Roza. Marçal
Aquino e Patrícia Melo serão os próximos. Tenho acompanhado
o sucesso de seus livros pela mídia. Entretanto, não dá
para dizer o que ainda pode ser explorado neste tipo de literatura porque
a criação de histórias é uma atividade muito
subjetiva e imprevisível. Quando a gente pensa que um gênero
pode estar esgotado, vem um autor e lança um enredo até
então inimaginável...
ATENEIA: Olha, eu não sei se ele me influenciou.
Acredito que vários autores me influenciaram. Entre eles, quem
sabe, o Tony Hillerman... Todos nós somos influenciados. Saltamos
e evoluímos apoiados nos ombros de alguém que também
saltou e evoluiu a partir de outros ombros. E, no Brasil, Rubem Fonseca
teve um papel marcante para uma nova geração de autores.
|
|||
|
|