ATENEIA FEIJÓ
Autora do O jantar da largatixa
 

Como sua experiência como jornalista influenciou na escolha do tema de O jantar da lagartixa?

ATENEIA FEIJÓ: Todo repórter é um contador de histórias. Há aquelas exaustivamente apuradas, “sob encomenda”, para serem publicadas num jornal ou numa revista. E aquelas que descobrimos por pura curiosidade ou até por acaso. Além das vividas por nós mesmos, em off, no exercício de nossa profissão, de nossa imaginação... Instintivamente, a gente acaba arquivando um baú de histórias lá no fundo da memória. Aí, chega um dia que tomamos coragem e clicamos no tal do arquivo. Pra quê? Para reciclar e aproveitar as velhas histórias, transformando-as em ficção. O que já é uma outra história... como, por exemplo, O jantar da lagartixa!

 

O enredo de seu romance mistura garimpo, causa ecológica e a morte do editor de uma revista carioca. Como você desenvolve tantos elementos? E em que medida a causa ecológica ainda é um caso de polícia, por atacar interesses poderosíssimos?

 

ATENEIA: A causa ecológica, na verdade, tem a ver com a sobrevivência planetária, com qualidade de vida sustentável etc etc. Então, ela entra naturalmente na trama de mistério. Ela “participa” do enredo policial e sustenta um clima de suspense bem brasileiro. No mínimo, O jantar da lagartixa é bastante original. (Estarei sendo pretensiosa?) Bem, quanto a misturar vários elementos numa história de crime e morte num país com as dimensões e a diversidade do Brasil, não é difícil. Amazônia, índios e garimpo são temas com os quais sou bastante familiarizada, por ter me dedicado a eles durante muitos anos.

 

O maior nome da literatura de suspense era uma mulher, Agatha Christie. Recentemente, temos autoras como P. D. James fazendo muito sucesso lá fora. Mas no imaginário popular suspense e mistério ainda parecem ser uma coisa “de menino”, talvez pela associação direta às histórias de Sherlock Holmes e aos filmes de pancadaria. Existe uma maneira feminina de escrever mistério?

ATENEIA: Acho que existe uma maneira feminina de escrever mistério, sim. E vou um pouco mais longe. Acho que grande parte das escritoras não assumia essa maneira diferente de escrever. Tanto assim, que algumas assinam apenas com as iniciais e o sobrenome, sem se identificarem (de imediato) como mulheres. Acho ainda que muitas procuram até escrever como os homens. E, daí, alimentam esse imaginário popular que suspense e mistério são uma coisa “de menino”. Então, palmas para a inglesa Agatha Christie. Ela criou a personagem Hercule Poirot, o detetive belga totalmente avesso à violência machista, como somente uma mulher poderia criar. E assinou a autoria com o nome completo.

 

Como autora, quais são suas influências quando o assunto é literatura policial?

ATENEIA: Influência de estilo? Honestamente, não sei. Como repórter, acredito ter desenvolvido meu próprio estilo de texto. Afinal, sempre ganhei a vida contando histórias... Agora, quanto à técnica do chamado texto de romance policial, confesso: segui a “receita” clássica. Ou seja, existem vários fatos e um crime que é investigado até se encontrar o criminoso. E, claro, a possibilidade de várias pistas, de vários suspeitos e vários criminosos. A história só termina com a descoberta final do verdadeiro assassino.

 

Se você tivesse que fazer uma genealogia da literatura de suspense no Brasil, por que autores ela passaria, obrigatoriamente? Por quê?

ATENEIA: Para responder a essa pergunta corretamente teria que estudar o assunto primeiro. Mesmo assim, me arrisco a dizer que um romance policial precisa ser bem escrito e ter uma história de suspense apaixonante para fazer sucesso junto ao grande público. Nesse sentido, acredito que se levarmos em conta as características do gênero, Rubem Fonseca é um marco.

 

Que outros gêneros e autores nacionais fazem parte de sua mesa-de-cabeceira?

ATENEIA: Penso que todo jornalista deveria ler Os sertões, de Euclides da Cunha. É um livro diferente e impressionante, de uma precisão técnico-científica, uma preocupação sócio-antropológica, uma sensibilidade histórica incríveis. Trata-se de um gênero único! Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, também é outra obra prima imperdível. Bem, e tem Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Mário Palmério, Antônio Callado, Darcy Ribeiro, João Ubaldo,Carlos Heitor Cony, Ana Miranda... Mas também gosto muito dos latino-americanos Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende e Mario Vargas Llosa. Do português contemporâneo José Saramago e do clássico Eça de Queirós. E há um romance de um antigo autor português, Ferreira de Castro, que me impactou quando eu era ainda uma adolescente. Chama-se A selva e o seu enredo se passa num seringal da Amazônia brasileira. Que mais? Adoro ficção científica e histórias de mistério e terror tipo A máquina do tempo, A ilha do Dr. Moreau e o Homem invisível, de H.G.Wells. Drácula, de Bram Stoker e... Frankenstein, de Mary Shelley, uma mulher que tinha 20 anos, na época em que escreveu a história! Considerada, veja só, “pai” da ficção científica... gosto de ler também livros não ficção de autores cientistas (que saibam escrever para o público leigo) e fico atenta aos lançamentos do gênero. E, nesse nicho, temos excelentes autores nacionais: os físicos especializados em cosmologia Marcelo Gleiser e Mário Novello, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel... Eles falam dos mistérios cósmicos e dos segredos de nossos cérebros. Um barato.

 


Na sua opinião, há alguma característica específica desta literatura por aqui? Existiria um noir verde-amarelo?

ATENEIA: Não sei se existe um noir verde-amarelo. Não estou capacitada para tamanha afirmação. Segundo o jornalista, escritor e tradutor Marcos de Castro, no fim dos anos 1950 e na primeira metade dos anos 1960, o paulista Luís Lopes Coelho chegou a ser falado, a partir do seu A morte no envelope (1957). Hoje, dificilmente alguém fala dele, seus livros se esgotaram e não foram reeditados. Parece-me que, hoje, os novos autores no gênero se esforçam para criar romances policiais com características brasileiras urbanas. Luiz Alfredo Garcia-Roza é um deles.

 

Que ingredientes precisa haver num bom livro policial para ele “prender” a atenção do leitor?

ATENEIA: Um crime envolvido em mistério com vários suspeitos e pistas para o leitor “interagir” e acompanhar a “investigação”, apostando em quem deve ser o verdadeiro matador ou os verdadeiros matadores. É quase um jogo. Quer dizer, a história tem que ter um desafio lúdico para o leitor. Acho que é mais ou menos isso.

 

Você acha que a literatura policial, muitas vezes associada ao entretenimento, pode ajudar a formar novos leitores?

ATENEIA: Claro que pode. Não existe nada melhor que uma leitura de entretenimento para fisgar novos leitores. Afinal, só depois de “fisgá-los” é que se pode pensar em formá-los para uma literatura mais complexa, mais sofisticada, acadêmica... Quantos e quantos leitores ou leitoras experientes não devem ter se “viciado” em livros, durante a adolescência, a partir de Agatha Christie e Sherlock Holmes? Acredito que até os “literatos de berço” tiveram sua fase de leitura noir. E aposto... um adulto que tenha tido a sorte de ler, por exemplo, Ladrões do tempo, do americano Tony Hillerman, não escapou: certamente ficou encantado com esse livro policial étnico que mistura cultura indígena, mistério e suspense.

 

Você tem acompanhado os novos livros policiais do Brasil? Qual a contribuição que autores como Luiz Alfredo Garcia-Roza, Marçal Aquino e Patrícia Melo deram ao gênero, por exemplo? O que ainda pode ser explorado neste tipo de literatura?

ATENEIA: Li Luiz Alfredo Garcia-Roza. Marçal Aquino e Patrícia Melo serão os próximos. Tenho acompanhado o sucesso de seus livros pela mídia. Entretanto, não dá para dizer o que ainda pode ser explorado neste tipo de literatura porque a criação de histórias é uma atividade muito subjetiva e imprevisível. Quando a gente pensa que um gênero pode estar esgotado, vem um autor e lança um enredo até então inimaginável...


O romance policial brasileiro urbano está muito associado à obra de Rubem Fonseca. É uma influência para você? Acha que o papel dele foi marcante para uma nova geração de autores?

ATENEIA: Olha, eu não sei se ele me influenciou. Acredito que vários autores me influenciaram. Entre eles, quem sabe, o Tony Hillerman... Todos nós somos influenciados. Saltamos e evoluímos apoiados nos ombros de alguém que também saltou e evoluiu a partir de outros ombros. E, no Brasil, Rubem Fonseca teve um papel marcante para uma nova geração de autores.

 
 
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