ANA ARRUDA CALLADO
Autora do Uma aula de matar
 

Você trabalhou muitos anos como jornalista e já escreveu livros de não-ficção. Como foi escrever sua primeira história de ficção?

ANA: Nunca tinha pensado em escrever ficção. “Não tenho imaginação; sou muito apegada aos fatos, por vício profissional”, dizia, sempre que alguém me perguntava a respeito. Mas, um dia, o José Louzeiro replicou, ironicamente: “Mas, Ana, o que jornalista faz não é quase sempre ficção?” Achei graça e neste mesmo dia, à noite, sentei em frente ao computador e escrevi a sinopse de Uma aula de matar. Não pretendi fazer literatura, veja bem. Não me vejo como um Garcia-Roza e muito menos como um Rubem Fonseca. Quis contar uma história (odeio a palavra estória, porque acho que é tudo a mesma coisa, a chamada História dos povos e os casos inventados), apenas. E, ao desenvolvê-la, descobri que era muito divertido e útil ir falando de coisas que você viveu, ouviu, sofreu, condenou, curtiu, como se fosse mentira ou vivência de outras pessoas. Descobri, também, que essa minha historinha policial tinha muito a ver com as biografias de mulheres que venho produzindo (escrevi sobre Maria José Barbosa Lima, Jenny Pimentel e Adalgisa Néri, e estou acabando livro sobre Maria Martins). Porque, enquanto trabalhava para reconstituir a trajetória delas, o que eu de fato queria, hoje sei, era me conhecer melhor. Mas estava presa pela personalidade de cada uma das biografadas. Em Uma aula de matar, não. Nada me prende. Estou me soltando mais nesse texto do que quando tentei fazer análise, nos anos 70.

O cenário da história é a fogueira de vaidades do meio acadêmico, numa respeitosa universidade. Em que medida há referências de sua própria trajetória como professora na trama?

ANA: O cenário em que coloquei minha história evidentemente tem muito da experiência de mais de 20 anos como professora em cursos superiores de Jornalismo. Passei por universidades públicas e privadas. Creio, porém, que a “fogueira das vaidades” existe em todos os ambientes profissionais. Entre professores universitários fica mais estranho porque a gente mitifica muito o saber. Senhores doutores podem ser tão machistas e tolos, no trato pessoal, como muitos jornalistas, cientistas ou motoristas de táxi. Aliás, estou desenvolvendo uma segunda história passada em um centro de pesquisas tecnológicas e a heroína é uma jornalista. Embora o acontecimento central de Uma aula de matar seja um caso concreto, real – um concurso para professor titular com uma única candidata mulher – que as pessoas nele envolvidas direta ou indiretamente vão se lembrar se lerem o livro, é claro que os personagens reais estão completamente mesclados com muitos outros. Não retratei ninguém conhecido, mas características de muita gente que conheço e conheci, inclusive, como já disse, minhas.

 

Quais são suas referências em literatura policial? Que escritores a influenciaram?

ANA: Dizer que não sofri influência de nenhum escritor – ou escritora – pode parecer uma atitude esnobe. Não é. Escrevi o livro como escrevi as biografias, como escrevo “orelhas” de livros de outros ou artigos. Como escrevia reportagens. Li muito Conan Doyle e Poe quando adolescente; também Agatha Christie, que continuei a ler sempre, assim como Simenon, que adoro. Recentemente descobri P.D. James, grande escritora. Mas, como disse, não estou fazendo literatura. Estou tentando me divertir e fazer auto-análise numa boa, tranqüilamente, como convém a uma senhora de idade.E espero divertir leitores com um texto correto. Só isso.

 
 
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